Jovem transforma história do pai em livro e reforça importância da rede de apoio na recuperação do alcoolismo
Jovem transforma história do pai em livro sobre recuperação do alcoolismo Dados do Datasus e do IBGE publicados no anuário "Álcool e a Saúde dos Brasileir...
Jovem transforma história do pai em livro sobre recuperação do alcoolismo Dados do Datasus e do IBGE publicados no anuário "Álcool e a Saúde dos Brasileiros: Panorama 2025", do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), mostram que o alcoolismo é responsável por 10,5% das mortes associadas ao uso de álcool no Brasil e faz 21 vítimas por dia no país. No entanto, há caminhos possíveis para a recuperação, especialmente quando o dependente tem uma rede de apoio. O g1 conversou com a estudante de jornalismo de Sorocaba (SP) Maria Clara Campos, de 21 anos, que transformou a luta do pai contra o alcoolismo em um livro no Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). 📲 Participe do canal do g1 Sorocaba e Jundiaí no WhatsApp Maria Clara abraçando seu pai, Sandro Leonel Arquivo pessoal "Escolhi esse tema para homenagear meu pai, que está em recuperação há cinco anos do alcoolismo e da dependência química. A ideia surgiu na disciplina de jornalismo literário, quando produzi uma reportagem sobre o impacto do alcoolismo e da dependência química nas famílias." A jovem se emociona ao lembrar dos 17 anos durante os quais conviveu com a doença dentro de casa. "Todos os dias eram uma luta diferente. Nunca sabíamos o que ia acontecer, se meu pai iria chegar e dormir ou se ia arrumar briga dentro de casa", respira. Durante todo esse tempo, Maria Clara lembra que sempre esperava a última dose de álcool na vida da família. Essa esperança também deu origem ao título do livro: "A Última Dose". "Eu sempre sonhei em entregar meu TCC com a história do meu pai. Tenho certeza de que, se ele não estivesse em recuperação, eu não teria conseguido vir embora estudar e deixar minha mãe no cenário em que vivíamos", se emociona. Família de Maria Clara, autora do livro 'A Última Dose' Arquivo pessoal A jovem contou que fez um extenso trabalho de pesquisa e conversou com outras famílias afetadas pela doença. Entre elas, a do ator Fábio Assunção. "A cada entrevista, fica mais evidente como essa doença entra nas famílias de forma parecida. Em muitos momentos, parecia que estávamos falando da mesma história. Confesso que chorei em várias delas. Afinal, somos humanos. O que mais me impressionou foi ouvir, tanto dos alcoolistas quanto de seus familiares, praticamente a mesma frase: 'Ele é uma pessoa boa, mas, a partir do primeiro copo, se transforma'", conta. A união durante o processo de recuperação do pai mostrou a Maria Clara o poder da família. "Nós passamos tudo isso juntos. Então, ao falar da nossa história, eu não estava apenas contando um passado, mas dando sentido a uma vivência compartilhada e construída em família", diz. A jovem reafirma que nunca teve dúvidas de que o pai aceitaria participar do trabalho. E que a boa relação entre os dois se provou ainda mais nas páginas do livro. "Ele ficou orgulhoso, me incentivou e até ajudou a procurar fontes para o livro. Em nenhum momento tive medo de ele não aceitar. Ele sabe que a história dele já incentivou muita gente, então seria mais um incentivo, um livro com nossa história", diz. LEIA TAMBÉM: Alcoólicos em recuperação relatam experiências e desafios para largarem vício Pai de Maria Clara foi a inspiração para a jornalista em seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) Arquivo pessoal Falta de cobertura Em sua dissertação, Maria Clara conseguiu identificar que, mesmo o alcoolismo estando presente na maioria dos lares e sendo causador de muitas mortes, ainda é um tema pouco tratado dentro dos veículos de comunicação. Segundo ela, "existe um tabu, porque envolve culpa, vergonha e julgamento". "Isso é uma ideia equivocada de que se trata apenas de falta de controle ou de caráter, quando, na verdade, é uma doença. Muitas famílias preferem o silêncio para se proteger, e isso acaba afastando o assunto das conversas públicas e das redações", conta. Na opinião dela, a falta de cobertura da mídia faz com que, muitas vezes, a dependência química apareça de forma superficial e associada a estereótipos ou a casos extremos. "Falta mostrar o cotidiano dessas pessoas, o impacto nas famílias e, principalmente, falar sobre prevenção, tratamento e acolhimento. Quando a mídia se aprofunda, ela ajuda a quebrar o tabu e a transformar informação em empatia", comenta. Internações e mortes por transtorno por uso de álcool Arte/g1 'A Última Dose' Maria Clara explica que, durante o trabalho do livro, passou por desafios, mas o principal foi encontrar um equilíbrio entre a emoção e a técnica do jornalismo. "A estrutura profissional me ajudou a organizar as histórias e ampliar meu olhar para além da minha vivência", conta. Segundo a jovem, o livro nasceu como uma maneira de ouvir e acolher, abrir espaço para o diálogo e mostrar que existe ajuda, e que o sofrimento vivido dentro de casa não precisa ser carregado em silêncio. "Gostaria que essas famílias entendessem que não estão sozinhas, que o que vivem não é fraqueza nem falta de amor. O livro não traz respostas prontas, mas oferece acolhimento e mostra que é possível falar sobre isso, buscar ajuda e romper o silêncio. Às vezes, o primeiro passo é perceber que outras pessoas também passaram e ainda passam pela mesma dor. Procurar ajuda não é fraqueza, é força", finaliza. Uma outra maneira de buscar uma saída para o vício é por meio dos grupos de apoio do Alcoólicos Anônimos (AA). Os locais podem ser conferidos no site. Capa do livro 'A Última Dose', escrito pela jornalista Maria Clara Campos Arquivo pessoal *Colaborou sob supervisão de Júlia Martins Veja mais notícias da região no g1 Sorocaba e Jundiaí VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM